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Fala de Mercúcio

5 outubro, 2005

(…)

Romeu – Não, não é isso.

Mercúcio – Minha alegoria, senhor, indica que, como de dia, gastamos nossa luz inutilmente. Conservai esse dito sempre em mente, que mais saber contém do que, reunidos, todos os nossos cinco ou seis sentidos.

Romeu – Sim, é o que faço nesta mascarada; mas é absurdo.

Mercúcio – Por que não vos agrada?

Romeu – Tive um sonho esta noite.

Mercúcio – Oh! Eu também.

Romeu – Sobre quê?

Mercúcio – Sonho algum verdade tem.

Romeu – Quando dormimos, tudo neles cabe.

Mercúcio – Oh! Visitou-vos a Rainha Mab.

Benvólio – Quem é a Rainha Mab?

Mercúcio – É a parteira das fadas, que o tamanho não chega a ter de uma preciosa pedra no dedo indicador de alta pessoa. Viaja sempre puxada por parelha de pequeninos átomos, que pousam de través no nariz dos que dormitam. As longas pernas das aranhas servem-lhes de raios para as rodas; é a capota de asa de gafanhotos; os tirantes, das teias mais sutis; o colarzinho, de úmidos raios do luar prateado. O cabo do chicote é um pé de grilo; o próprio açoite, simples filamento. De cocheiro lhe serve um mosquitinho de casaco cinzento, que não chega nem à metade do pequeno bicho que nos dedos costuma arredondar-se das criadas preguiçosas. O carrinho de casca de avelã vazia, feito foi pelo esquilo ou pelo mestre verme, que desde tempo imemorial o posto mantém de fabricante de carruagens para todas as fadas. Assim posta, noite após noite ela galopa pelo celebro dos amantes que, então, sonham com coisas amorosas; pelos joelhos dos cortesãos, que com salamaleques a sonhar passam logo; pelos dedos dos advogados, que a sonhar começam com honorários; pelos belos lábios das jovens, pústulas, por vê-los com hálito estragado por confeitos. Por cima do nariz de um palaciano por vezes ela corre, farejando logo ele, em sonhos, um processo gordo. Com o rabinho enrolado de um pequeno leitão de dízimo, ela faz coceiras no nariz do vigário adormecido, que logo sonha com mais um presente. Na nuca de um soldado ela galopa, sonhando este com cortes de pescoço, ciladas, brechas, lâminas de Espanha e copázios bebidos à saúde, de cinco braças de alto. De repente, porém, estoura pelo ouvido dele, que estremece e desperta e, aterrorado, reza uma ou duas vezes e, de novo, põe-se a dormir. É a mesma Rainha Mab que a crina dos cavalos enredada deixa de noite e a cabeleira grácil dos elfos muda em sórdida melena que, destrançada, augura maus eventos. Essa é a bruxa que, estando as raparigas de costas, faz pressão no peito delas, ensinando-as, assim, como mulheres, a agüentar todo o peso dos maridos. É ela ainda…

Romeu – Paz, Mercúcio! Paz!

Mercúcio – Sim, só falo de sonhos, prole ociosa de um cérebro vadio, a qual de nada provém senão da inútil fantasia, que é tão firme como o ar, mais inconstante do que o vento que faz a corte ao frio seio do norte e, sendo repelido, volta de lá bufando e o rosto vira para o sul orvalhoso.

Benvólio – Pois o vento de que falais nos toca para longe de nós próprios. A ceia está acabada; chegamos muito tarde.

(…)

Romeu e Julieta
(William Shakespeare)

Comentários :
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[Cel] [roffi@uol.com.br]
Elevado vocabulário; criança…. bjs mil felicidades!!!!

26/10/2005 22:43

[Ma]
Confesso que o linguajar é bastante rebuscado, tornando a compreensão mais difícil… Não posso dizer que já entendi tudo…. mas posso afirmar que gostei!

12/10/2005 24:19

[Trotta]
Hehehe! Eu realmente pensei que era derivado de “celebrar”, assim como o Artur. 🙂

07/10/2005 14:54

[Bod]
A anta que vos fala caríssimo amigo esquece como se escreve! Se empolga e nem para copiar o texto serve! Mas tenho que deixar meu protesto! Afinal seu amigo, o Trotta, tem permissão para acessar e corrigir os textos aqui publicados!!! Lembre-o por favor!

06/10/2005 21:07

[Artur de Miranda]
(com fazes = COMO fazes)

06/10/2005 19:44

[Artur de Miranda]
Só espero que este “celebro” provenha do verbo “celebrar”, e não do substantivo “céRebro”! Se lês tanto como aparenta, e lês textos tão rebuscados e bem escritos como este que aí está publicado, como podes ainda escorregar no português com fazes vez ou outra? Em verdade, asseguro-lhe que não entendo.

06/10/2005 19:43

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